Déjame compartilhar uma experiência com você.

Lembro-me de quando era criança e caminhava pelo corredor de maquiagem em lojas com luzes suaves. Tudo me parecia curioso: os pincéis pequenos, os pós, os lápis, os frascos minúsculos. Eu sentia que esses objetos podiam transformar uma pessoa em criadora e criação ao mesmo tempo.

Mas havia um produto que sempre chamava minha atenção: as sombras para os olhos.

Eu não queria usá-las. Não sentia necessidade de usá-las. Mas elas me intrigavam.

Parecia-me linda a ideia de adicionar cor ao redor dos olhos, como se o rosto fosse uma tela e cada olhar pudesse contar uma história diferente.

Quando eu via uma sombra roxa, meu orgulho adolescente se inflava um pouquinho. Eu já tinha aquela cor ao redor dos olhos de forma natural. Tinha nascido com ela. Chamei aquilo, com certa inocência, de “maquiagem hereditária”.

Por um instante, eu me senti bonita. Bonita de verdade.

Quando a beleza natural começa a parecer um defeito



Depois vi os cremes para os olhos. Em particular, o corretivo para olheiras.

Corretivo.

Essa palavra ficou cravada em mim.

Foi então que comecei a questionar minha aparência pela primeira vez.

Por que algo tão natural do meu corpo, algo que eu nunca tinha notado como ruim, de repente precisava ser corrigido e coberto? Será que alguém realmente podia pensar que a pele delicada ao redor dos meus olhos era horrível?

Esse foi o começo de uma jornada incômoda. Uma jornada em que tentei esconder o rosto com que eu havia nascido.

Se eu não tinha tempo de me maquiar abaixo dos olhos, usava óculos para desviar a atenção. Queria evitar que alguém olhasse demais para as minhas olheiras. Queria evitar que meu rosto fosse considerado “escuro demais”, “cansado demais” ou simplesmente “errado”.

E o mais triste é que, antes de ouvir essas ideias lá fora, eu não odiava essa parte de mim.

Às vezes acontece assim. Não nascemos rejeitando o nosso corpo. Muitas vezes aprendemos a fazer isso por comentários, comparações, anúncios, filtros, olhares ou frases ditas sem cuidado.

O impacto dos comentários sobre a aparência física



Uma vez, fiquei olhando para as minhas olheiras no espelho com desprezo por muito tempo. Tudo porque um garoto, de quem eu nem gostava, havia dito que olheiras eram nojentas.

Ele falava de James Dean nos bastidores, durante um ensaio musical.

“Eca”, disse ele. “Olheiras deixam a pessoa feia”.

Ele não estava falando de mim. Mas a minha mente tomou aquilo como se ele tivesse apontado o dedo para o meu rosto.

Noutra manhã, acordei, me olhei no espelho e, por algum motivo, não detestei as olheiras daquele dia. Eu me vi humana. Eu me vi real. Até me animei a ir para a escola sem maquiagem.

Mas essa pequena coragem durou pouco.

Um professor disse que eu parecia cansada. Depois, uma das garotas mais bonitas da escola me perguntou se eu estava me sentindo doente.

Imagino que, naquele dia, eu realmente parecia doente e cansada. Ou talvez eu só parecesse eu mesma.

A ironia é que, depois desses comentários aparentemente inofensivos, eu realmente me senti doente e cansada. Não pela minha aparência, mas pela vergonha que se ativou dentro de mim.

Comecei a me perguntar o que mais as pessoas não gostavam no meu rosto.

As minhas marcas de beleza não eram bonitas, afinal? A pequena pinta abaixo do meu olho direito incomodava alguém? Se alguém chegasse perto o suficiente para notar a pequena lasca no meu dente, faria uma careta?

Chegou um ponto em que nenhuma parte do meu corpo parecia estar a salvo da crítica. Nem mesmo as partes que eu antes amava.

É assim que a insegurança funciona muitas vezes: ela começa com um detalhe e depois tenta ocupar tudo.

Quando você se cansa de lutar contra o próprio reflexo



Finalmente, senti que o cansaço tomava conta de mim.

Não era só cansaço físico. Era o esgotamento de me vigiar o tempo todo. De checar meu rosto em cada espelho. De me perguntar se alguém estava olhando justamente para aquilo que eu tentava esconder.

Perguntei a mim mesma se algum dia eu compartilharia com outra pessoa todas essas “verdades” sobre mim que me pareciam ofensivas.

A resposta foi clara e imediata: não. De forma alguma eu faria isso.

Então surgiu outra pergunta, muito mais importante:

Se eu não falaria assim com outra pessoa, por que eu me permitia acreditar que deveria me odiar?

Era hora de olhar para a minha autoestima com honestidade. Não para fingir uma segurança perfeita. Não para me repetir frases bonitas sem acreditar nelas. Mas para começar a me tratar com um pouco mais de respeito.

Se você está passando por um processo parecido, também pode ajudar ler sobre como iniciar a autoaceitação focando no que você ama. Às vezes, não se trata de amar tudo de uma vez, e sim de parar de se atacar todos os dias.

Um exercício de autoaceitação para olhar suas imperfeições com ternura



Decidi tomar as rédeas da situação e fiz um inventário de todas as características que eu detestava em mim.

A primeira coisa que apareceu na minha caneta foram as minhas olheiras.

Ali começou a tarefa. Mas também ali poderia terminar a guerra.

Em vez de vê-las como manchas, comecei a imaginar minhas olheiras como pequenas luas no espaço abaixo dos meus olhos. Como um mistério suave ao redor das janelas da minha alma.

E, sabe de uma coisa? Também podia escolhê-las como um traço herdado da minha família. Uma marca de história. Uma impressão de sangue, sonho, memória e vida.

Eu não precisava transformá-las em um defeito para que o mundo as entendesse. Não precisava cobri-las todos os dias para merecer me sentir apresentável.

Claro que posso me maquiar se quiser. Posso brincar com cores, texturas e brilhos. O problema não era a maquiagem. O problema era usá-la a partir do medo, como se meu rosto natural fosse algo pelo qual eu devesse pedir desculpas.

A diferença é enorme: uma coisa é se enfeitar por prazer, e outra bem diferente é se esconder por vergonha.

Como mudar a forma como você fala consigo mesma diante do espelho



Se hoje você tem dificuldade para aceitar uma parte de si, comece observando a linguagem que usa consigo mesma.

Você não precisa passar de “eu odeio isso” para “eu amo isso” em um minuto. Esse salto pode parecer falso. Mas você pode tentar frases mais gentis e realistas:


  • “Essa parte de mim existe e eu não preciso castigá-la”.

  • “Meu rosto não precisa agradar a todo mundo para ser digno de respeito”.

  • “Posso cuidar de mim sem me rejeitar”.

  • “Minha beleza não depende de apagar cada traço natural”.



Você também pode escrever o que sente. Colocar no papel ajuda a tirar o ruído da mente. Se essa ideia for útil para você, este artigo sobre como escrever um diário íntimo ajuda a crescer internamente pode te orientar com um recurso simples e muito humano.

E, se você descobrir que sua insegurança vem de feridas antigas, críticas repetidas ou exigências impossíveis, não se julgue. Às vezes, precisamos de tempo, apoio e novas experiências para reconstruir a relação com o nosso corpo.

Seus traços contam uma história, não um erro



Para quem resiste às próprias particularidades, quero dizer algo com carinho.

Talvez você tenha uma sobrancelha mais alta que a outra. Uma marca abaixo do queixo. Uma cicatriz na testa por causa de um acidente na infância mal curado. Um nariz que não se encaixa nos padrões da moda. Estrias. Sardas. Manchas. Dentes imperfeitos. Olheiras. Dobras. Texturas.

Nada disso faz de você menos valiosa.

A imperfeição, quando deixamos de olhá-la com crueldade, pode se tornar profundamente magnífica. Pode ser memória. Pode ser caráter. Pode ser identidade.

Você pode até se tornar detetive da própria história, uma maga que transforma o olhar, uma artista que cria sua beleza simplesmente sendo quem é.

Para aprofundar esse caminho, também pode te acompanhar descobrir sua verdadeira essência, mesmo quando isso for desconfortável. Porque se aceitar nem sempre é confortável, mas costuma ser libertador.

Hoje eu escolho olhar para as minhas olheiras de outra maneira.

Não como uma falha.

Não como algo que eu precise corrigir antes de sair para o mundo.

Mas como pequenas luas próprias. Como uma sombra suave que também pertence à minha luz. 🌙

Querido coração, suas olheiras são lindas. E você não precisa se apagar para merecer amor.