En los últimos años se volvió casi un mantra: “la masculinidad es tóxica”. En redes sociales, en debates, en sobremesas. Pareciera que si naces hombre, traes instalado de fábrica un combo de machismo, hostilidad y ego inflado tamaño continente.
. E isso não significa negar a violência nem minimizá-la, mas olhar para ela com mais precisão para poder preveni-la melhor.
Me acompanha, que vamos desmontar isso com psicologia, humor e um pouquinho de experiência clínica e de conversas com homens que, juro, sofrem muito por esses estereótipos :)
Uma equipe de pesquisa na Nova Zelândia analisou mais de quinze mil homens adultos de diferentes contextos, entre 18 e 80 anos. Não se trata de uma pesquisa improvisada nas redes, mas de um estudo publicado em uma revista acadêmica especializada em homens e masculinidades.
que muitas vezes circula nas redes.
A grande maioria dos homens que chega à terapia não entra dizendo “venho aprender a dominar melhor minha parceira”, mas coisas como:
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O que é realmente a masculinidade tóxica (e o que não é)
O estudo não usou o termo “tóxico” como rótulo moral, mas como
conjunto de traços mensuráveis. Trabalharam com oito indicadores relacionados a formas problemáticas de entender a masculinidade:
- Identidade de gênero rígida: acreditar que “ser homem” exige comportar-se de uma única maneira, inflexível.
- Preconceito sexual: julgar ou desprezar pessoas por sua vida ou identidade sexual.
- Desagradabilidade: tendência a mostrar-se frio, pouco empático, duro com os outros.
- Narcisismo: necessidade extrema de admiração, sensação de superioridade sobre os outros.
- Sexismo hostil: crenças abertamente negativas e agressivas em relação às mulheres.
- Sexismo benevolente: ideias que “parecem elogios” mas colocam as mulheres como frágeis ou inferiores, por exemplo “elas não deveriam se preocupar em trabalhar, os homens devemos protegê-las”.
- Resistência à prevenção da violência doméstica: justificar ou minimizar a violência no casal ou na família.
- Orientação à dominação social: preferir hierarquias rígidas onde alguns grupos mandam e outros obedecem.
Quando vários desses fatores se combinam em níveis altos, aparece o que chamamos de
masculinidade tóxica.
E aqui um ponto muito importante:
- Não é tóxico chorar.
- Não é tóxico ser forte fisicamente.
- Não é tóxico gostar de liderança.
Torna-se problemático quando a força é usada para dominar, quando a liderança exclui, quando a ideia de “ser homem” implica
controlar e submeter.
Em meus workshops com homens jovens costumo fazer uma pergunta incômoda:
“Qual foi a primeira vez que te disseram que algo que sentias ‘não era de homem’?” A maioria lembra:
- Chorar quando criança.
- Sentir medo.
- Querer brincar com algo “considerado feminino”.
Aí já se instala a semente: se não me permitem sentir, o que faço com a raiva, o medo, a frustração? Quando não se aprende a gerir as emoções, é muito mais fácil que elas saiam em forma de violência ou controle.
Sugiro ler:
Devo me afastar de alguém tóxico? Como saber. Os quatro perfis masculinos que o estudo detectou
A análise estatística permitiu agrupar os participantes em quatro grandes perfis. Nem todos os homens se comportam igual, e isso é uma excelente notícia para a prevenção.
1. Perfil “atóxico”
- Abrange cerca de 35 por cento da amostra.
- Mostra níveis muito baixos nos oito indicadores problemáticos.
- São homens que não costumam sustentar ideias sexistas nem atitudes de dominação.
Aqui se enquadram muitos homens que sim sofrem os estereótipos, que se sentem apontados apenas por serem homens, apesar de viverem relações igualitárias ou de tentar ativamente fazê-lo.
2 e 3. Perfis de masculinidade de baixo a moderado risco
- Somados representam um pouco mais da metade de todos os homens avaliados.
- Apresentam alguns traços problemáticos, mas em níveis baixos ou moderados.
- Não se situam em extremos preocupantes, embora seja conveniente trabalhar crenças e hábitos.
Em consulta vejo muitos homens desses grupos: não se consideram machistas, mas soltam frases como:
- “Eu cuido dela, por isso prefiro que não saia sozinha à noite”.
- “Eu ajudo em casa”.
E então falamos de
cuidado que controla e de por que “ajudar em casa” sugere que a casa é dela.
4. Perfis de alta toxicidade Aproximadamente 10 por cento mostram sinais claros de masculinidade tóxica. Aqui os pesquisadores distinguiram dois subgrupos:
- Tóxicos benevolentes (cerca de 7 por cento)
- Apresentam altos níveis de sexismo “cavalheiresco”.
- Podem tratar as mulheres como “tesouros a cuidar”, mas a partir de um lugar paternalista.
- Nem sempre manifestam hostilidade explícita, o que torna suas crenças mais difíceis de detectar.
- Hostil tóxico (um pouco mais de 3 por cento)
- Manifestam sexismo aberto e agressivo.
- Tendem a se opor a políticas contra a violência de gênero.
- Mostram maior narcisismo e gosto pela dominação.
Da psicologia sabemos que
um grupo pequeno, com atitudes muito danosas, pode gerar um impacto social enorme. Esse tipo de homem aparece mais nas notícias policiais, em casos de violência extrema e em discursos de ódio.
Isso explica por que percebemos que “todos são assim”, embora os dados mostrem o contrário.
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Se a maioria não é hostil, por que sentimos tanta violência machista?
Boa pergunta, e muito necessária. Várias coisas se misturam aqui.
1. O efeito foco: o extremo é mais visível Os casos de violência machista grave ocupam capas e manchetes, como deve ser. O terrível não pode passar despercebido.
O problema aparece quando
generalizamos esse perfil para todos os homens. Nosso cérebro tende a lembrar melhor o impactante e o perigoso.
2. Estruturas que continuam desiguais Embora muitos homens não ajam de forma hostil,
vivemos em sociedades que ainda arrastam desigualdades:
- Diferenças salariais.
- Distribuição desigual das tarefas de cuidado.
- Menor credibilidade quando uma mulher denuncia.
Isso significa que mesmo homens bem-intencionados podem
se beneficiar de um sistema desigual sem perceber. Por isso não basta pensar “eu não sou violento”, é preciso revisar privilégios e papéis.
3. Dor acumulada nas mulheres Em sessões com mulheres ouço frases como:
- “Não confio nos homens, ponto final”.
- “Não tenho energia para diferenciar, estou cansada”.
Quando uma mulher carrega anos de micromachismos, assédio de rua, silêncios cúmplices e comentários sexualizados,
é compreensível que generalize. Não é “justo” em nível estatístico, mas faz sentido em nível emocional.
Como terapeuta, costumo propor um equilíbrio:
- Às mulheres: cuidar da sua segurança e da sua saúde mental, mesmo que isso implique colocar limites muito claros aos homens em geral por um tempo.
- Aos homens que de fato querem mudar: não se ofender defensivamente, mas compreender que essa raiva social nasce de uma dor real.
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Prevenção mais precisa: como focar melhor as campanhas e a educação
Uma das grandes contribuições do estudo tem a ver com a prevenção. Se nem todos os homens são iguais,
as mesmas estratégias não servem para todos.
Podemos pensar em diferentes níveis de intervenção:
1. Com a maioria não tóxica Esses homens podem se tornar aliados-chave. Como?
- Formando-os em detecção precoce de condutas de controle em amigos, colegas ou familiares.
- Envolvendo-os em programas de paternidade corresponsável e papéis de cuidado.
- Convidando-os a falar de emoções com outros homens, para quebrar o mito de que “entre homens não se fala dessas coisas”.
Em palestras empresariais, quando peço que homens contem um momento em que se sentiram vulneráveis, no começo reina o silêncio constrangedor. Depois, quando o primeiro se abre, forma-se uma cascata. A prevenção também passa por aí:
normalizar que os homens se mostrem humanos.
2. Com os perfis de risco baixo ou moderado Aqui funcionam muito bem:
- Espaços de reflexão sobre micromachismos e “piadas inofensivas”.
- Dinâmicas que questionem o sexismo benevolente: por exemplo, “ela não deveria carregar coisas pesadas” quando ela quer e pode.
- Programas de educação emocional, especialmente em adolescentes e jovens adultos.
Uma dinâmica que uso bastante: convido os homens a imaginar como se sentiriam se, toda vez que saíssem sozinhos à noite, tivessem que compartilhar a localização em tempo real por medo de sofrer uma agressão. Isso muda muito a conversa.
3. Com os perfis de alta toxicidade e hostilidade Aqui já falamos de
intervenções especializadas:
- Programas terapêuticos obrigatórios para agressores, com avaliação séria de mudanças de conduta.
- Trabalho direto sobre crenças de dominação, narcisismo e legitimação da violência.
- Políticas públicas firmes que enviem uma mensagem clara: a violência tem consequências reais.
Não bastam campanhas brandas; nesses casos a prevenção deve articular
educação, justiça e acompanhamento psicológico.
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Na consulta e nos workshops: histórias que desmontam mitos
Compartilho algumas cenas (adaptadas para preservar confidencialidade) que vejo repetidas vezes.
O homem que temia ser “como o pai” Em terapia, um paciente me disse:
“Meu pai gritava, quebrava coisas, fazia a gente ter medo. Eu não faço nada disso, mas minha parceira diz que desconfia dos homens. O que eu faço?” Trabalhamos em duas frentes:
- Ajuda-lo a reconhecer e sustentar suas próprias condutas saudáveis, sem carregar culpas que não lhe pertencem.
- Abrir um diálogo com sua parceira sobre os medos dela e os esforços dele, para construir confiança pouco a pouco.
Aqui se vê algo chave do estudo:
a maioria dos homens não quer se parecer com os modelos violentos que conheceu. Muitos procuram terapia justamente para romper com esse legado.
O “cavalheiro” que não via seu sexismo benevolente Num workshop, um homem se orgulhava de dizer:
“Eu jamais permitiria que minha mulher trabalhasse, eu a sustento e a cuido”.
Não insultava as mulheres, não justificava violência física, mas sustentava uma ideia profundamente paternalista. Quando perguntei se sua parceira estava feliz com esse acordo, ele ficou em silêncio. Tempo depois, ela comentou que
se sentia presa.
Esse é o tipo de perfil que o estudo chama de “tóxico benevolente”:
- Não necessariamente agride, mas limita a liberdade.
- Coloca a mulher num pedestal, contanto que ela obedeça ao molde que ele espera.
Trabalhamos em replantear a ideia de cuidado por uma de
equipe: dois adultos que se acompanham, não um que decide pelo outro “para o bem dele”.
Astrologia, homens e rótulos Como astróloga, ouço muitas vezes coisas como:
- “Todos os homens de tal signo são infiéis”.
- “Os homens de fogo são sempre agressivos”.
Sempre respondo o mesmo:
nem o mapa natal nem o gênero condenam ninguém. Um homem com um mapa cheio de fogo pode aprender a usar essa energia para empreender, proteger de forma saudável e amar com paixão, não para dominar.
O mesmo vale para o gênero:
ser homem não determina que você seja violento. O que faz diferença é a combinação de história pessoal, crenças, ambiente, nível de consciência e trabalho interno.
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Para encerrar:
- A evidência científica mostra que a grande maioria dos homens não sustenta atitudes hostis nem abertamente sexistas.
- Existe uma minoria com traços claramente tóxicos que sim representa um forte risco social.
- Precisamos de prevenção mais precisa: deixar de tratar todos os homens como se fossem o problema e começar a diferenciar perfis, responsabilidades e possibilidades de mudança.
Se você é homem e se sente atacado pelo discurso de “todos são iguais”, te convido a uma pergunta incômoda mas muito poderosa:
“O que eu posso fazer, a partir do meu lugar, para que as mulheres se sintam um pouco mais seguras e respeitadas ao meu redor?” E se você é mulher e sente que já não pode confiar, também faz sentido. Talvez o primeiro passo seja
cuidar de si, colocar limites claros e rodear-se de homens que mostrem com ações que existem outras formas de masculinidade.
Da psicologia, da astrologia e da simples experiência humana, eu vejo isso todo dia:
nem todos os homens são tóxicos, mas todas as masculinidades precisam de consciência, revisão e responsabilidade. Aí está o verdadeiro caminho de prevenção e mudança.